concurso de contos | setebro de 22

Confira as regras:

1. O conto deve ser original e inédito, isto é: escrito pelo próprio autor e nunca antes publicado em outro site, blog, revista, coletânea, fanzine ou outros tipos publicações (sejam elas independentes ou não);

2. Os R$100,00 são pelo direito de exibir o seu conto completo em nosso site. Os direitos autorais do conto continuarão sendo da pessoa autora, que poderá republicá-lo aonde quiser.

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Último Tapa

Gabriel Yared

Ninguém passa naquela parte da avenida Duque de Caxias mesmo, mas pra evitar qualquer X9, a gente entrava pelo portão aberto dos fundos do Hospital Geral. Os funcionários dali nunca deduravam a gente, então podíamos escapar da escola e fumar o beck tranquilo ali no pátio.

Num dia desses, tava lá nós quatro, e a Belinha tinha acabado de acender o baseado. Um funcionário passou perto, deu uma olhada na gente e fingiu que não viu nosso uniforme. Entrou pela porta mais próxima e logo esquecemos dele em meio à fumaça que começou a nos arrudiar.

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A Mulher com o Cajado

Amanda Kraft

Ela jamais confirmava. Ria e dizia que eu deveria ser escritor, pois meu sonho era maluco demais. Que se passasse por algo como eu descrevia, enlouqueceria. Com o tempo pediu-me para não mais falar sobre ele. Os sonhos deveriam ser esquecidos. Não passavam de “peças pregadas” por nossas mentes. Ela está feliz. Não sei se finge. O fato de todos terem se esquecido dele me diz que ela provavelmente não está mentindo. Às vezes eu mesmo duvido se realmente vivi tudo aquilo. Confesso que está cada vez mais difícil lembrar-me de todos os fatos. Talvez eu realmente deva pôr no papel aqueles momentos, em uma tentativa de exorcizar essas cenas que me confundem e amedrontam. 

Estávamos fazendo trilha, testando a moto nova do Saulo. Ele seguia à frente. Eu vinha em sua cola, porém um pouco mais devagar, trazendo a Guta na garupa, quando um vento gélido nos açoitou. Olhei para cima e o tempo continuava firme no azul ensolarado. Buzinei para ele, pois uma sensação estranha me assolou. Saulo parou à minha frente, a contragosto, logo que passamos por um mata-burro. Senti um solavanco na moto e o grito de Guta quase me ensurdeceu quando ela pensou que fosse cair. Foi aí que percebemos que a paisagem verde mudou drasticamente. A estrada de terra tornou-se esburacada e as árvores jaziam desfolhadas e enegrecidas à nossa volta. O sol perdera a força, deixando quase tudo cinza, sem vida. Ao longe havia uma torre soltando uma fumaça densa e preta. Talvez fosse ela a culpada de o lugar estar coberto de fuligem.

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Subversivo

Gutenberg Löwe

— Como é a experiência de estar do outro lado? — perguntou a apresentadora. Batia as unhas sobre a capa do livro.

— É algo surreal, pois nunca tinha imaginado que acabaria escrevendo algo de protesto. A farda te desumaniza, mas teve um momento em que veio o estalo. — Vicente pausa para fazer o barulho com os dedos. — E aí comecei a bater na máquina o primeiro conto. Daí em diante, não parei mais.

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O santo e o ímpio

Guilerme Balarin

    O corpo do Filho na cruz foi arrancado da parede e atirado ao chão.

Ali, dentro da igreja, as sombras projetavam-se sobre o padre Alonso, que rezava em silêncio, ajoelhado em frente ao altar. O sol nascia, e as serpentes de luz esgueiravam pelos vitrais e invadiam o piso de pedra da grande nave. O gótico ali só potencializava a pequenez que o padre sentia. As lágrimas de culpa escorriam pela sua face. E o corpo sagrado estilhaçado em sua frente forçava-lhe a impor mais vigor em sua reza. A cabeça com olhar pesaroso do Filho julgava-o como ninguém mais já o fez. E era justamente apenas àqueles olhos que Alonso almejava a dignidade de elevar-se ao reino dos céus.

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A Maldição da Mansão

Roberto Minadeo

Há uma famosa maldição, para pessoas ricas que podem pagar por um lar maravilhoso: “Que os Pedreiros Nunca Saiam de Sua Casa!”

    Beatrycze e Haskel formavam um casal em grande ascensão. Casaram-se em 2004. Depois de muito trabalho fizeram uma fortuna e resolveram construir o que seria sua casa definitiva.

    Recém-formada em Economia, Beatrycze foi conseguindo uma grande clientela, auxiliada pelos contatos de seus pais, criando uma das mais famosas casas de gestão de fortunas de Varsóvia.

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Os Porcos

Schleiden Nunes

Sonhei de novo.
Boca amarga, cheia de lama,
gengivas rasgadas.
Era real.
Nessa outra vida, sentia tudo.
Com meus irmãos, vivíamos tudo.
Em um curral trombamos feio.
Os lombos batiam contra o cercado;
os peões traziam batatas
e, noutra mão, o aço.

Então, sonhei de novo.
Boca docinha, cheia de inhame,
Gengivas rasgadas.
Era real.
Nessa outra vida, sentia tudo.
Com meus irmãos, comíamos tudo.
Entre as bandejas trombamos feio.
Os lombos em nossos dentes cerrados.
Os garçons traziam batatas
E, noutra mão, o eu do passado.

Jaime subiu a escada às pressas, saltando de três em três degraus. Todos, tanto quem estava no térreo quanto quem estava no primeiro andar, puderam ouvir os pulos pesados, de jeito desesperado, que ameaçavam partir ao meio as tábuas seculares de madeira. O ranger que elas faziam a cada passada, como se arguissem um grito de dor, confundia-se com os gemidos que Maria Tereza, no quarto para onde Jaime se dirigia naquele segundo, proferia.

Era um som agudo, mas grosseiro, que parecia um choro desafinado e desesperado; um reclamar; uma geladeira velha, reclamona, dessas que ficam ainda mais audíveis durante a madrugada.

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